sábado, 23 de setembro de 2017

SOBRE NEOFEUDALISMO E PORQUE DELE NÃO SE FALA

«Our system is Neofeudal because the non-elites have no real voice in the public sphere, and ownership of productive capital is indirectly suppressed by the state-corporate duopoly.* » Charles Hugh Smith

(*O nosso sistema é neo-feudal porque as não-elites não têm realmente qualquer voz na esfera pública e a posse do capital produtivo está indirectamente suprimida pelo duopólio estado-corporações) 

Como bem diz Charles-Hugh Smith, a questão é essencialmente de poder. Poder político e poder económico, os quais andam sempre de par. 

A nossa ideologia que permeia todo o quotidiano é a do neoliberalismo, ou seja, de que não existe alternativa à democracia representativa, dentro dos moldes definidos como sendo aceitáveis. Não se questiona o poder económico, que distorce a genuinidade e a possibilidade mesmo de uma democracia eleitoral; estabelece-se uma igualdade fictícia, a igualdade do eleitor perante o voto, a igualdade dos candidatos a um posto de trabalho, a progressão social e profissional apenas dependente do mérito (meritocracia), etc.
No domínio do poder económico as coisas são muito claras, basta-nos analisar a estrutura de posse de que as diversas fatias (não uso o termo classes, neste contexto) de rendimentos dispõem. 
Os muito ricos, os que estão no 1%, em termos de rendimentos, têm as suas posses repartidas de tal modo que uma parte substancial seja fonte de rendimento. Portanto, tal estrutura de propriedade implica acumulação, sem - aliás - fazerem qualquer esforço de contenção de gastos. Por isso é que os muito ricos são tendencialmente cada vez mais ricos. 
À medida que se desce na escala de rendimentos, verifica-se que a quantidade disponível de bens que geram rendimento se vai tornando numa fatia percentual menor, em relação ao total: por exemplo, uma família da classe média poderá possuir um apartamento que utiliza como habitação própria, ou seja, não gera rendimento; quanto muito, evita que parte de seus salários seja para pagar as rendas de casa. Além desse apartamento, podemos supor que disponha de alguns rendimentos financeiros, como fundos de poupança ou outros, os quais irão gerar uma quantidade mínima de rendimento. 
Quando nos deparamos com a situação das classes realmente desapossadas, «proletárias» no sentido clássico do termo, verificamos que não são detentoras de bens que geram rendimentos, nem possuem bens que - pelo seu valor e seu uso - representam uma forma de independência mínima. Isso significa sobretudo, nos dias de hoje, o ser dono de sua casa; no passado distante significava ser dono de terreno agrícola que permitisse assegurar o essencial da subsistência.


No gráfico acima, retirado do artigo de Charles Hugh Smith citado, os rendimentos de vária natureza - participação em negócios, fundos, acções, títulos, imobiliário não habitacional, seguros de vida, depósitos, contas-poupança, residência principal, dívida total - seguem uma progressão inversa ao estatuto socioeconómico. A maior percentagem de participação em negócios vai para o 1% (os mais ricos), enquanto a maior fatia da dívida vai para os restantes 90% .
Penso que este esquema se aplica, não apenas à sociedade americana, como também às sociedades europeia e portuguesa, com algumas variações de pormenor.
Esta estrutura de propriedade pode nos fazer compreender a verdadeira razão porque a parte mais rica e poderosa tem vindo a aumentar o seu poder económico e político nos últimos 30 anos, enquanto os trabalhadores e os pequenos empresários têm ficado cada vez mais frágeis, ou mesmo depauperados, em muitos casos.

A ideologia neoliberal esconde deliberadamente o facto essencial da fractura social em classes. Ela está constantemente impondo a sua visão do mundo, falseada através da tripla falácia da democracia eleitoral representativa, da meritocracia e das classes de rendimento. 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

MÚSICA POP - MERO PRODUTO DE «USAR E DEITAR FORA»

Este vídeo dá pistas para compreendermos a psicologia de massas contemporânea, a sociedade do espectáculo e a robotização completa do ser humano.
A nossa sociedade está doente porque mata a criatividade com a tecnologia. 
Eu tenho a convicção disso desde há muito tempo, mas talvez alguns leitores achem que eu «exagero». 
Antes de decretarem tal sentença, façam o favor de ouvir este video...



quinta-feira, 21 de setembro de 2017

EXPERIÊNCIAS DE AUTOGESTÃO [23 Set. 18:30 - Fábrica de Alternativas - Algés]

                                     Foto de Fábrica de Alternativas.-

Uma sessão na Fábrica de Alternativas dedicada à luta e construção de alternativas na região de Rojava / Curdistão Sírio. 

Na primeira parte, serão fornecidas informações, na segunda será aberto um debate. Estão todos convidados a participar. 

Após o debate haverá um jantar vegetariano [ limitado a 30 lugares, inscrição prévia para quem deseja jantar, em:  fabrica.de.alternativas@gmail.com ]




quarta-feira, 20 de setembro de 2017

SENADO DOS EUA SANCIONOU A FIRMA DE SOFTWARE KASPERSKY

O Senado dos EUA acaba de passar uma resolução para banir esta firma de concorrer no mercado americano. Ela é suposta ter feito «actos hostis» em relação aos EUA. Mas, na verdade, ela não fez mais do que o seu trabalho.

Fornece software, incluindo os chamados «patches», para os seus clientes não estarem sujeitos a exposição aos programas de ciber-espionagem (tipo Big Brother) da NSA. 

Sabemos que os construtores e fornecedores de software americanos foram coagidos a deixar essas «portas de trás», para serem usadas pela CIA, para espionar tudo e todos, sem qualquer controlo. 

A firma russa Kaspersky desenvolveu um software que protege os sistemas dessas fragilidades «embutidas». Isto não é, de forma alguma, ir contra a lei de um qualquer país. 

O governo dos EUA tem programas que, como Snowden e Assange e outros demonstraram para além de qualquer dúvida, se destinam a obter do seu e meu ou de quaisquer computadores dados, ilicitamente. 

A hipocrisia consiste em dizer que a firma Kaspersky tem actividade hostil ao governo dos EUA, quando é precisamente o contrário: é o governo dos EUA que tem actividade hostil em relação aos cidadãos de todos os países do mundo, incluindo os seus próprios cidadãos. 

Mas a verdade acabará por vir ao de cima; os biliões que eles investem em programas monstros de vigilância  em massa da Internet são uma ideia megalómana, mas inútil.

Ironicamente, todas estes actividades são dirigidas contra aqueles que supostamente deveria defender ... e com financiamento pelo erário público, ou seja, os contribuintes!! 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

KURT WEIL, DUAS CANÇÕES

O  SEU AO SEU AUTOR

Esta publicação tem a ver com a minha longa paixão pela poesia posta em música e pela música que não se deixa encerrar em categorias convencionais. É a minha modesta homenagem a Kurt Weil.

SPEAK LOW - UTE LEMPER


As raízes do jazz são múltiplas, assim como a nossa civilização «ocidental» (mas tão bem representada no Oriente!). 
A música popular de qualidade vai construindo a sua  tradição, por selecção e eliminação das escórias. Só nos parece efémera porque nós estamos mergulhados no instante.
Mas existe uma fusão entre a música popular e a «erudita» em alguns poucos compositores, entre os quais K. Weil.
                                           
                                          SEPTEMBER SONG - SARAH VAUGHAN

                                     

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

BANKSY FOI PRESO! VEJAM O VIDEO DE SUA ÚLTIMA OBRA: WALLED OFF HOTEL

Vejam aqui o vídeo do «Walled off Hotel»:


O artista mais incómodo na actualidade... foi preso na Palestina.

http://newsexaminer.net/art/graffiti-artist-banksy-arrested-in-palestine-identity-revealed/

A (NOVA) GUERRA DA COREIA NÃO TERÁ LUGAR...

... Pelo menos, é isso que - parece - os coreanos do Sul pensam. 
Ou será antes que tal frase é expressão da indiferença da comunidade internacional? 
- Sim, porque a indiferença em relação a procurar compreender o que se está a passar é abismal! Os media, o principal instrumento de propaganda dos globalistas, estão interessados em fabricar notícias sensacionalistas, não em explicar os «como» e «porquê» das crises.

O regime da Coreia do Norte poderá estar a ser empurrado, pelos americanos, com o seu arsenal de sanções, a ripostar com aperfeiçoamento do seu arsenal de misseis e de bombas nucleares. Pois isto é - pensam eles - a única forma de evitar que os EUA desencadeiem um ataque surpresa, supostamente preventivo, para eliminar as armas nucleares norte-coreanas. 
Felizmente, o recém eleito presidente Moon da Coreia do Sul, já se pronunciou claramente no sentido de não permitir que seja desencadeada (iniciada) uma guerra contra o Norte. 
O Norte tem baterias de canhões apontadas a Seul: são cerca de 25 milhões de cidadãos da Coreia do Sul, ao alcance dessa artilharia, caso haja um ataque de surpresa. 
Não haverá hipótese de aniquilar de uma penada este dispositivo, que inclui unidades móveis, outras em esconderijos e bunkers, o que torna praticamente impossível que um ataque-surpresa fique impune, não sofra uma riposta, uma retaliação. 
Os americanos mantêm grande parte dos seus quartéis bem próximo (ou dentro) de Seul, para se assegurarem que - se eles forem atacados - a população civil sul-coreana também o será!

De qualquer maneira, vemos que esta crise está a fortalecer ao regime da Coreia do Norte, mostra que não receia o papão: a maior potência nuclear mundial. Mostra que não receia o império global militarista, cujo orçamento da defesa é muito maior do que os orçamentos conjugados das restantes grandes potências (China, Rússia, etc...). 
Esta crise mostra também  que o sistema das Nações Unidas está caduco e foi desenhado ou, pelo menos, manipulado para servir como instrumento de pressão e de chantagem ao serviço dos americanos. Não será por acaso que a sede está em Nova Iorque. 

Mas a incapacidade das potências em controlarem o problema da proliferação das armas nucleares está inteiramente dependente do grau de empenhamento, dos esforços concretos que estas mesmas potências tenham em relação à paz. Será o seu papel e dever, como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, em resolverem os conflitos por via pacífica, em realizarem passos concretos na via do desarmamento, em relação às armas nucleares, em primeiro lugar; depois, às outras armas de destruição maciça (biológicas e químicas) e a reduzirem os arsenais das armas ditas convencionais, por fim.

Assim, a crise com a Coreia do Norte deve ser vista como uma crise do sistema da hegemonia mundial unipolar. Os EUA só sabem usar a força; a diplomacia não desempenha papel no seu «arsenal», senão como propaganda interna e internacional.
O seu modo de proceder é fácil de compreender: tudo o que questione a sua hegemonia é  visto como ameaça à «ordem globalista». A sua reação típica nestes casos, tem sido - neste terceiro milénio que se iniciou com uma hegemonia de Washington  - de desencadear guerras ditas «preventivas» (absolutamente proibidas e condenadas pelos próprios princípios da Carta da ONU!). 
Estas guerras não têm hipótese de ser "ganhas" (vejam-se os casos do Afeganistão, do Iraque, da Líbia, da Ucrânia, da Síria), mas devem ser geradoras do caos, através do qual Washington continuará a manipular e beneficiar das riquezas dessas regiões.

Veja-se também como as guerras, instigadas pelos EUA, se têm concentrado junto das fronteiras, ou nas zonas de influência, da grande potência rival, a Rússia. Esta política de atear fogos nas fronteiras dos que ameaçam a sua hegemonia estende-se também à China. 

O facto é que, nem a China, nem a Rússia, podem consentir que a população norte-coreana seja vítima dupla: dos que a governam (Kim Jon-un parece-me ser apenas porta-voz da junta político-militar) e dos que pretendem manter, por todos os meios, incluindo a guerra, a sua hegemonia mundial.

Não podem consentir por várias ordens de razões:
- Razões humanitárias: estariam a cometer o crime de genocídio, de punição coletiva da população civil indefesa, ela própria vítima. 
- Razões políticas: o completo isolamento do regime Norte coreano dificultará quaisquer iniciativas de apaziguamento, de resolução pacifica do conflito.
- Razões da sua própria segurança: A Coreia do Norte faz fronteira com ambas, Rússia e China. O precipitar duma guerra «a quente» irá desestabilizar as zonas fronteiriças, com milhares de refugiados, o que irá obrigar, numa ou noutra fase, à intervenção militar direta dum dos vizinhos, ou de ambos. Não esqueçamos que existem acordos de assistência mútua em vigor entre a Coreia do Norte, a China e a Rússia.
- Razões de estratégia mundial: Pois se os EUA querem tanto desencadear uma guerra com a Coreia do Norte, é precisamente para continuarem a sua política de instabilidade permanente, com focos de tensão nas fronteiras das potências rivais: o objectivo é sempre o mesmo, enfraquecer a China e a Rússia. 
Estas, estão claramente empenhadas em fazer emergir uma nova ordem mundial multipolar e isso é anátema para a potência hegemónica decadente.

Veja-se também o vídeo abaixo, mostrando as capacidades próprias da Coreia do Sul:




Eu posso conhecer factos, veiculados por fontes várias, sem adotar suas conclusões. Tem sido esta a minha postura e tenciono continuar nela, o mais possível.
Tenho-me inspirado bastante, ultimamente, na obra de F. William Engdahl, no site Strategic-Culture.org e noutras fontes: são um meio de nos mantermos informados e de lermos análises que saem da rotina da media prostituta ocidental.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

BRILHANTE INTERPRETAÇÃO DAS CZARDAS DE MONTI


Se quisermos ouvir a melhor música romântica das diversas paragens da Europa, temos sempre uma série de fantásticas interpretes do extremo-oriente para nos satisfazer o nosso desejo. 
Não há maior requinte, pois captam a essência da música, ao mesmo tempo que interpretam com uma técnica impecável! 
Não tenho dúvidas, quando oiço estes exemplos, que o futuro é na China, na Coreia, no Japão!
Já não nestas paragens da Europa (ocidental, central ou oriental) onde prevalece o hedonismo e as jovens gerações ignoram tudo da sua tradição e da sua arte.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

A LUTA PELA AUTONOMIA NO CURDISTÃO SÍRIO

                           US-backed forces on collision course with Syrian Army in ‘race for Deir ez-Zor oilfields’


Em 2014, quando os exércitos do Iraque e da Síria foram derrotados por uma repentina ofensiva do ISIS, algo muito particular surgiu no território Sírio, perto da fronteira com a Turquia, na região de Kobane. 
Milícias curdas de auto-defesa (YPG) ergueram-se para defender Kobane, a cidade onde predominava esta etnia, para que ela não caísse nas mãos dos djihadistas salafistas financiados pelas monarquias do Golfo, em especial pela Arábia Saudita, com a bênção e apoio logístico, em segredo, dos americanos. Nesta ocasião formou-se um movimento de solidariedade com os defensores de Kobane, tidos como próximos do partido curdo irmão do PKK.
O PKK, por sua vez, depois da prisão do seu líder Oçalan, numa ilha turca,  tinha sofrido uma mutação tanto estratégica quanto ideológica. O seu líder prisioneiro, tinha estudado com muito interesse Murray Bookchin e tinha chegado à conclusão de que o seu movimento se deveria inspirar pelo Municipalismo Libertário para construir a nova entidade, nas zonas libertadas. Assim, Kobane foi o primeiro laboratório em «escala real» de um movimento de guerrilha, que adotou princípios de horizontalismo, assembleísmo e de total igualdade entre homens e mulheres. Se tal postura já era por si só revolucionária em qualquer parte do mundo, em especial o seria frente a uma ofensiva dos ultra-conservadores, inspirados na interpretação mais obscurantista e fundamentalista do Corão: o Waabismo.
Porém, não devemos embandeirar em arco, pois as forças nas quais se integram os contingentes curdos sírios, as SDF (Sirian Democratic Forces) são largamente controladas, financiadas e equipadas pelos EUA. Estes, não querem perder o controlo estratégico do leste da Síria, onde se situa o petróleo e onde podem exercer vigilância sobre o Irão, sobretudo pretendem manter as bases ilegalmente aí implantadas, sob o pretexto de combater o Estado Islâmico (uma criação deles, da Mossad, dos sauditas, dos quataris, da Al Quaida, etc.) . 
Agora, com Dar-el-Zor prestes a ser libertada do cerco de anos pelas forças do Estado Islâmico, desenvolve-se uma corrida de velocidade para controlar esta região, rica em petróleo, entre as forças governamentais sírias, apoiadas pela Rússia, e as forças de SDF, apoiadas pelos EUA. 
O que deveria prevalecer seria um acordo para que não houvesse incidentes entre forças que, nominalmente, combatem o mesmo inimigo... mas sabemos que tem havido uma constante sabotagem disso, pelo Estado Profundo dos EUA, que já vem do tempo da presidência Obama. Não esqueçamos que um acordo de troca de informações entre forças dos EUA e Russas foi sabotado horas depois de concluído, pelo bombardeamento «por engano» de uma coluna do  exército sírio, causando mais de 60 mortes do lado sírio, na altura em que estes estavam a repelir o Estado Islâmico na zona de fronteira sírio-iraquiana.   
Vamos ver o que traz a queda da província de Dar-el-Zor

                             
                              
O que os EUA tentam cozinhar é claramente a construção de um mini-estado tampão, usando os curdos (tal como o fizeram, várias vezes, com os curdos iraquianos) para depois poderem se implantar permanentemente nessa zona do mundo, onde estritamente não têm absolutamente lugar nenhum, mas onde eles pretendem estar presentes, para controlo das rotas do petróleo, do gás e mantendo e acirrando rivalidades e conflitos entre povos, única coisa na qual eles são exímios! 

No meio disto, os militantes revolucionários vão ser - mais uma vez - «deitados para debaixo do autocarro», caso continuem a fazer a escolha errada e «apanhem o isco» de criar um mini estado Curdo, sem viabilidade e apenas baseado no apoio americano.

sábado, 9 de setembro de 2017

TSUNAMIS, SISMOS E FURACÕES

Todos nós sabemos acerca das catástrofes naturais que se abatem, num ponto ou noutro do globo. 
Recentemente, um sismo devastador assolou uma parte do México. O receio de um tsunami acompanhando o terramoto está sempre presente, nestas ocasiões. 
Os furacões tropicais Harvey e Irma devastaram o Texas e as Caraíbas, causando prejuízos incalculáveis, além dos mortos, dos feridos e dos muito milhares de deslocados.
Todas estas ocorrências são de natureza pouco previsível no que toca às circunstâncias em que ocorrem e ao tempo em que ocorrem. 
Porém, nenhuma destas ocorrências é uma surpresa completa, pois conhecem-se as falhas na crosta terrestre, a atividade do magma e o desenvolvimento de tensões no rebordo de placas geológicas, que estão na origem dos sismos. 
Analogamente, são conhecidos os movimentos das massas de ar e de humidade nas zonas tropicais e equatoriais, que estão na origem de furacões, os quais têm muito mais probabilidade de se formar em determinadas áreas do globo, do que noutras.  
Estamos relativamente bem informados sobre estes acontecimentos naturais, que consideramos fatalidades fora do alcance dos homens. 
Porém, as circunstâncias em que as sociedades humanas enfrentam estas ocorrências podem agravar ou - pelo contrário - minorar, numa grande medida, os aspetos piores de tais tragédias. Sobre as referidas circunstâncias, já nos informam muito menos, já é pouco discutido, a não ser -talvez- nos próprios países onde tais ocorrências se verificam. 

                    


O domínio da atividade económica, pelo contrário, pode dizer-se que é inteiramente dependente da capacidade e da visão humana. Neste domínio, usam-se com frequência expressões como «tsunami», «terramoto», «furacão», etc. para designar metaforicamente os períodos de crise e o seu desencadear, mais ou menos súbito. No entanto, não somos informados nem sobre as forças subjacentes a tais situações de crise, nem sobre todas as medidas que as sociedades poderiam tomar para impossibilitar ou diminuir muito o impacto de tais crises. 
Com efeito, as forças em jogo são suscetíveis de serem conhecidas e estudadas, tão bem ou melhor que as forças em jogo nos fenómenos geológicos ou climáticos. 
Claro que, tal como na Geologia ou Climatologia, haverá - na economia e na política - uma investigação científica e um debate entre especialistas. 
Mas a conversa entre especialistas, por si só, não irá permitir, ao nível do público em geral, uma compreensão mais aprofundada e portanto uma atitude preventiva e racional, no que toca aos modos das sociedades produzirem, consumirem, se organizarem.  
Em tais domínios do saber, creio que há muito mais ignorância do público em geral, há muito menos preocupação em fornecer os instrumentos cognitivos durante a escolaridade, a um nível não específico. Ou apenas terão acesso a estes saberes, os alunos do ensino secundário ou superior que tenham escolhido áreas de especialidade relacionadas de perto com a economia. 


O mesmo se passa em relação à informação «mainstream», que noticia acontecimentos, quer políticos, quer económicos, sem nunca os contextualizar ou, sequer, dar pistas que permitiriam aos mais curiosos consultar trabalhos mais aprofundados e completos.

Penso que a analogia entre catástrofes naturais e político-económicas pode ser adequada ao nível das consequências humanas. 
Mas não é de todo adequado usarmos um modelo como os sismos ou os furacões, no sentido mecânico: não são análogas as forças que estão em jogo, no caso das catástrofes naturais e nas catástrofes desencadeadas pelos humanos. 
Porém, existe uma tendência em usar e abusar da metáfora natural para «explicar» o mecanismo de fenómenos da economia. 
Assim, produz-se um discurso que tem as aparências de científico, mas é vazio de conteúdo verdadeiro. Ele veicula apenas preconceitos embutidos no pensamento dos produtores e recetores do discurso.


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

NOVO BANCO, NOVO GOLPE DA CLEPTOCRACIA

O «Fundo de Resolução» é a garantia última das pequenas poupanças, de que serão protegidas em caso de falência de uma instituição bancária.
O «golpe de génio», mas de génio do mal, é utilizar o referido fundo como garantia para a venda do Novo Banco, ele próprio resultante do maior cambalacho de que há memória, envolvendo não apenas os trapaceiros e falidos Ricardo Salgado e família, ex-donos do BES, como o anterior e o actual governos e o governador do Banco de Portugal...
Acrescente-se que a «Lone Star», a tal entidade compradora do banco (cujo capital é maioritariamente detido por portugueses, privados ou do Estado), é um fundo «abutre»!

Leiam este artigo, que mostra o que é - verdadeiramente - o governo deste país.
O Zé Povinho continua distraído por mil e uma coisas, quando, na verdade, a todos os níveis, tem sido esfolado.
A falta de preocupação com o que acontece com os dinheiros do Estado («não é meu, eles que se lixem!» parece que estou a ouvir pessoas ignorantes dizerem!) é que permite as piores gatunagens, dos que se sentam nas cadeiras dos conselhos de administração dos bancos e dos governos.
Todos são obviamente culpados ou coniventes, no mínimo, de atos administrativos destinados a lesar o erário público e o interesse dos depositantes na banca portuguesa, por outras palavras... toda a gente!
A própria ausência de fiscalização política e legal pela Assembleia da República, em relação a este processo, mostra - uma vez mais - como está podre e corrompida a «democracia» à portuguesa...
Mas como não existe indignação pública com isso, como não existe poder judicial independente do poder político... nada lhes acontece!!!!

TRES PALABRAS - BOLERO


O celebérrimo bolero - aqui interpretado por Nat King Cole  - é uma obra-prima da música latino americana. Tem letra e música de Osvaldo Farrés, um dos grandes autores cubanos dos anos 50 do século passado.

Oye la confesión 
de mi secreto, 
nace de un corazón 
que está desierto. 

Con tres palabras 
te diré todas mis cosas, 
cosas del corazón 
que son preciosas. 

Dame tus manos, ven, 
toma las mías 
que te voy a confiar 
las ansias mías. 


Son tres palabras, 
solamente mis angustias, 
y esas palabras son: 
cómo me gustas.



sábado, 2 de setembro de 2017

MUNICIPALISMO LIBERTÁRIO

Com a aproximação de uma campanha eleitoral para as autarquias (Municípios e Juntas de Freguesia) em Portugal, achei oportuno recordar algumas formas alternativas de se fazer política municipal. Não no sentido vago de algo que se mantém nas margens do sistema, sem no entanto o pôr em causa, mas justamente, aquelas experiências ricas de saber e prática. Aquelas experiências onde um sentido agudo dos objetivos estratégicos se alia com a noção realista e pragmática de quem intervém no seio das sociedades. 

Irei expor, em artigos seguintes, algumas experiências de auto-gestão generalizada, de participação democrática genuína da população, que estão em curso. 
Podem ser consideradas utopias realizadas, na medida em que as suas premissas teóricas estão próximas dum comunalismo/comunismo autêntico, ou seja, do comunismo anárquico que se desenvolveu ao longo dos séculos 19 e 20, tendo tido expressão em várias experiências históricas: 
- As grandes e trágicas experiências da Comuna de Paris, de 1871, dos sovietes russos, que foram domesticados e esvaziados pelo poder Bolchevique, da Revolução Espanhola de 1936-1939. Mas também a gesta menos conhecida e estudada da Revolução da Macnovichina, em distritos rurais da Ucrânia, entre 1917 e 1923, que fez frente sucessivamente a exércitos Czaristas, Alemães, Nacionalistas Ucranianos e Bolcheviques e a gesta ainda menos conhecida dos anarquistas do extremo-oriente, sobretudo Coreanos exilados na Manchúria entre 1929-31, que constituíram comunas libertárias e lutaram contra exércitos inimigos (do Japão imperial, mas também do partido «comunista» Chinês) em território muito vasto, superior à superfície total da Bélgica e Holanda reunidas.

Nos finais do século XX, Murray Bookchin dava corpo teórico a uma forma de intervenção não burocrática, mas de democracia participativa, numa altura em que ainda não abundavam escritos e muito menos práticas de gestão territorial, seguindo os princípios libertários, em tempo «normal» e em grande  escala. 

Felizmente, a situação mudou, desde os anos noventa do século vinte: não têm faltado experiências às quais nos podemos referir, como inspiração, mais do que como modelo. Com efeito, os modelos são sempre coisas fossilizadas e tomando como idênticas as circunstâncias, as quais nunca são possíveis de transplantar, de um dado local geográfico e de um particular contexto sócio-histórico.

Irei escrever...
- sobre a rebelião Zapatista, no sul do México, em Chiapas, que trouxe formas vivas de auto-organização associadas com a resistência armada de um povo indígena, que não se quer deixar dominar pelo poder do dinheiro; 
- sobre a Rojava, no Curdistão Sírio, onde uma forma anti-autoritária de vida comunitária se constrói, ao mesmo tempo que as forças de auto-defesa combatem (desde há quase 4 anos, por vezes, praticamente sozinhas) a investida brutal e obscurantista do ISIS ou Estado Islâmico. 
- Também irei debruçar-me sobre experiências numa escala, não de regiões, mas de autarquias, de municípios e aldeias, como Marinaleda, na Andaluzia ou de comunidades autónomas no Sul Alentejano. 

«... A recuperação e desenvolvimento da política deve, afirmo, tomar como ponto de partida o cidadão/cidadã, no seu entorno imediato, para além das áreas familiares e privadas de sua vida. Não pode haver política sem comunidade. E por comunidade quero dizer uma associação municipal de pessoas reforçada pelo seu próprio poder económico, a sua própria institucionalização da democracia de base, com o apoio confederal de outras comunidades vizinhas, organizadas numa rede territorial à escala local e regional. Os partidos que não participem nesta forma de organização popular não são políticos, no sentido clássico do termo. De facto, são burocráticos e opostos às políticas participativas e à participação dos cidadãos. A autêntica unidade de participação na vida política é o município, quer seja na sua totalidade, se ele for à escala humana, ou nas suas diversas subdivisões, nomeadamente, na vizinhança, no bairro...»

. . . The recovery and development of politics must, I submit, take its point of departure from the citizen and his or her immediate environment beyond the familial and private arenas of life. There can be no politics without community. And by community I mean a municipal association of people reinforced by its own economic power, its own institutionalization of the grass roots, and the confederal support of nearby communities organized into a territorial network on a local and regional scale. Parties that do not intertwine with these grassroots forms of popular organization are not political in the classical sense of the term. In fact, they are bureaucratic and antithetical to the development of a participatory politics and participating citizens. The authentic unit of political life, in effect, is the municipality, whether as a whole, if it is humanly scaled, or in its various subdivisions, notably the neighborhood. . . .

Retirado de «Libertarian Municipalism: The New Municipal Agenda» por Murray Bookchin»

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

AGENTE DA CIA EXPÕE A EXTENSÃO E PODER DO ESTADO PROFUNDO


Este vídeo, pela sua clareza, dispensa comentário. Tenho pena de não dispor de uma tradução em português. Encorajo os leitores do blog a divulgarem ao máximo, pois estas verdades, ditas por alguém «de dentro», têm muito mais impacto.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

DA ESCRAVATURA MODERNA

A ESCRAVATURA COMO MODO DE PRODUÇÃO

O sistema económico esclavagista vigorou na antiguidade, sendo substituído a pouco e pouco pelo feudalismo. Porém, algo da sociedade esclavagista permaneceu e teve um renovo, na sequência da expansão ultramarina de potências como a Espanha e Portugal, no século XV e XVI, às quais se juntaram a França, a Inglaterra, a Holanda, nos séculos seguintes. A utilização em massa do trabalho escravo apenas ficou confinada a algumas sociedades pós-coloniais, como os EUA onde, no Sul, uma mão de obra escrava se ocupava das penosas tarefas de uma agricultura orientada para a exportação de algodão e outras produções tropicais. Porém, no decurso do século XIX os interesses económicos do capitalismo industrial, expressos na ideologia liberal, forçaram a uma abolição da escravatura, na maior parte dos países. Portugal foi um dos primeiros a fazê-lo.



A ESCRAVATURA DA DÍVIDA

A forma moderna de escravatura chama-se dívida.
Ela não foi inventada nos tempos modernos, pois já existia na antiguidade; era frequente em sociedades arcaicas, alguém se entregar como escravo para saldar dívidas acumuladas, por forma a preservar a propriedade e, portanto, a subsistência da família, num tempo em que a agricultura era o modo de vida de quase toda a população. Porém, nos tempos de hoje ela tornou-se muito mais refinada e perversa. Vejamos como:
Os bancos centrais emitem papel-moeda, aliás sob forma eletrónica em grande parte, nos dias de hoje. Esse «papel» não tem contrapartida nenhuma, não tem a sustentá-lo nenhuma quantidade de metal precioso (ouro ou prata), o qual era diretamente usado como dinheiro durante mais de cinco mil anos, sendo depois armazenado nos bancos centrais e sendo possível obter o equivalente em ouro ou prata em troca de uma determinada soma em papel-moeda.  Este sistema funcionou nomeadamente, durante o século XIX e a primeira metade do século XX. Os grandes sobressaltos, como as guerras (guerra de secessão dos EUA, primeira guerra mundial e segunda guerra mundial) foram ocasião para os governos desvalorizarem forçadamente o dinheiro, por forma a obterem os abastecimentos em matérias primas, armas, víveres para continuarem a guerra. Fora desses períodos conturbados verifica-se uma estabilidade monetária (ausência de inflação) e uma expansão do comércio e indústria. O «padrão ouro» ou «padrão bimetálico» funcionou razoavelmente bem no período que vai do fim das guerras napoleónicas até ao início da 1ª Guerra Mundial.
Porém, o abandono progressivo da convertibilidade das moedas em ouro foi levado a cabo pelos governos no século XX, até à suspensão de Bretton Woods, por Nixon em 1971, que fechou a janela de convertibilidade do dólar em ouro (a 35 dólares a onça de ouro). Desde então, os bancos centrais e os bancos comerciais são as únicas entidades emissoras de «dinheiro-papel». Estas entidades criam dinheiro a partir de nada. São elas que detêm o verdadeiro poder. As pessoas têm de obter dinheiro a troco de trabalho ou de venda de bens, os quais são ao fim e ao cabo resultantes de trabalho, mesmo que seja por antepassados. Os banqueiros apenas têm de digitar uns números.
No caso dos banqueiros centrais, eles decidem, por exemplo, comprar títulos detidos pela banca comercial. Estes títulos são adquiridos ao valor nominal, mas isso não corresponde ao valor real. Assim, os bancos centrais ficam com uma carteira de ativos monstruosa, mas que será muito difícil, senão impossível, de reduzir. Por outro lado, os bancos comerciais recebem do banco central dinheiro «fresco» que pode servir assim para reequilibrar as suas contas.   
Quanto aos da banca comercial, quando eles estabelecem um empréstimo a um cliente, estão a criar dinheiro a partir de nada, ao digitarem uma soma na conta desse cliente. Através do sistema de reserva fraccionária, é legal os bancos emprestarem (segundo os casos) entre 10 a 30 vezes mais dinheiro que aquele que detêm em ativos. O que os bancos fazem legalmente é emprestarem aquilo que não possuem: esse ato é considerado crime se efetuado por uma pessoa «vulgar», dá direito a prisão…


HIPOTECA = PACTO DE MORTE

A palavra «mortgage» (hipoteca em Inglês) provém do francês arcaico e significa pacto (gage) de morte. Assim, uma pessoa compromete-se a restituir o que pede emprestado, nas condições do empréstimo, sob pena ficar devedora até à morte, ou seja, será condenada à escravidão, caso não cumpra o referido contrato.
Durante os últimos decénios, passou-se de uma economia de produção, no Ocidente, a uma economia da dívida: as pessoas ficaram dependentes do sistema bancário para tudo. O seu nível de vida foi melhorado durante a primeira parte do período (até aos anos oitenta do século XX) mas começou a estagnar e mesmo regredir a partir de então, para o conjunto dos países ditos «Ocidentais». Os salários estagnaram devido a uma contraofensiva do capital, nos anos Thatcher-Reagan, que se traduziu por uma «liberalização» /desregulamentação das relações laborais. As famílias da classe trabalhadora que tinham atingido um certo conforto material, tiveram de recorrer mais e mais ao crédito, a empréstimos, a hipotecas, para obterem bens duráveis e perecíveis que, entretanto, se habituaram a possuir. Por exemplo, o número de salários que um trabalhador necessitava para comprar a sua habitação nos anos cinquenta do século XX, era muito inferior aos que necessitaria hoje em dia, em média.  Mas esse sistema da dívida atingiu hoje em dia o paroxismo de muitas pessoas estarem sobre endividadas, com hipotecas para a casa, para o automóvel, para os estudos, para o consumo (cartões de crédito).

A EXPANSÃO DA DÍVIDA

Desde o abandono do sistema de Bretton Woods em 1971, a escravatura da dívida cresceu a um ritmo exponencial. Nos EUA, a dívida total em 1971 somava 1 700 milhares de milhões de dólares. Hoje, atinge mais de 67 000 milhares de milhões de dólares. No início do século XXI, era de 30 000 milhares de milhões de dólares, mais do que duplicou, nos 16 anos subsequentes. Se compararmos o crescimento da dívida com o do PIB, vemos que nos EUA, desde 1971, a dívida total foi multiplicada por 39 enquanto o PIB apenas foi multiplicado por 16. Isto prova que o aumento do nível de vida se fez à custa de uma falsa riqueza, uma riqueza que foi obtida por impressão monetária. Mas será isso um problema? Sim, é um problema pois essa dívida nunca desaparece, simplesmente ela é atirada para o dorso das futuras gerações. Os cálculos que se façam para os Estados Unidos, aplicam-se, e com resultados muito semelhantes, a outros países e para a economia mundial. Veja-se o quadro abaixo para ilustrar o fenómeno:



Dívida mundial: 2 quadriliões de dólares

A impressão maciça de papel-moeda criou esta dívida monstra. O aumento da «liquidez» (ou seja, impressão monetária) para resolver o problema, apenas vai manter e agudizar o mesmo. O efeito devastador desta destruição do valor da moeda vai repercutir-se, cada vez mais, nos anos seguintes: como a impressão monetária é o único instrumento de que os bancos centrais dispõem, vão continuar a fazê-lo, tanto mais que os governos ficam gratos de uma diluição do valor das moedas; com efeito, isso corresponde a uma diminuição do valor relativo das dívidas. Os Estados têm dívidas diversas, obrigações diversas, que se exprimem em unidades de moeda que têm de pagar, no futuro. Se essas unidades estão desvalorizadas e o Estado paga a soma em dívida, a dívida ficou saldada… em termos contabilísticos, mas não em termos reais. Suponhamos uma pessoa, que tem descontado ao longo da sua vida profissional determinadas somas para o fundo de pensões (seja o fundo do Estado ou privado, o problema mantém-se). A partir do momento da reforma, começa a auferir uma soma fixa, mas essa soma corresponde à restituição de somas investidas ao longo de decénios. No entanto, se fosse calculado o juro médio correspondente a essas somas em todos os anos descontados, essa pessoa teria agora uma pequena fortuna, muito mais do que aquilo que irá receber nos anos que lhe restam de vida. É assim – de forma fraudulenta – que o Estado se descarta das suas obrigações. Um dólar actual, relativamente a um dólar dos anos 70 do Século XX, vale um sexto ou menos… As outras divisas mundiais têm uma perda de valor ainda mais acentuada.

UMA SOCIEDADE SEM DINHEIRO-PAPEL

Os banqueiros e governos sabem que dependem da escravatura da dívida para se manterem. Mas, para isso ser possível, têm de obrigar as pessoas a manter o seu dinheiro dentro das instituições de crédito. A ofensiva contra o dinheiro líquido (=em papel) toma amplidão a partir do momento em que os Estados e Bancos Centrais enveredaram por uma aventurosa e criminosa experiência de multiplicação desenfreada do dinheiro em circulação. A isso se resumem os «Quantitative Easing» e outras medidas, cujo o objetivo é «gerir» o ingerível, ou seja, dar a ilusão de solvabilidade, de não haver bancarrota, quando na verdade, se se olhar através de um prisma realista, todo o sistema está falido.
Inventaram então a repressão financeira, ou seja, uma taxa de juro forçada, demasiado baixa, que não corresponde aquilo que existiria resultando da oferta e procura de capitais, ou seja pelo funcionamento capitalista clássico.  Assim, os juros de depósitos a prazo, sendo menores do que a inflação, as pessoas serão empurradas para arriscar o seu dinheiro no casino da bolsa… o que explica, em grande parte, o crescimento contínuo das mesmas, sem que haja real aumento do valor das empresas cotadas.
Mas para «honrar» os compromissos e dívidas da banca, era necessário que as pessoas não pudessem subtrair o seu dinheiro, não o pudessem levantar sob forma de papel, tivessem de obrigatoriamente usar meios eletrónicos para os pagamentos. A consequência é que num contexto de ausência de dinheiro papel, as pessoas não poderão fazer nada senão recorrendo a cartões de crédito e outros meios de pagamento, inteiramente controlados pelo sistema bancário. Para além da total perda de privacidade e confidencialidade, os bancos e os Estados procuram obter um controlo total, para taxarem a seu bel prazer os escravos. Os bancos poderão retirar – legalmente- somas (o juro negativo) tão grandes quanto seja preciso para sua manutenção… Os Estados poderão fazer um controlo total e «imposição dos impostos» que entenderem, sem qualquer possibilidade de fuga. As pessoas, muitas vezes pensam que os que fogem aos impostos são vilões e que o Estado é uma entidade virtuosa que zela por nosso bem. A verdade é que o Estado é um monstro frio e impessoal, que quer sempre devorar mais capital, ao fim e ao cabo, o produto do trabalho, do engenho, do esforço e da criatividade humanas.
A Suécia já está praticamente no estádio da sociedade sem «cash». A coroa sueca, como outras divisas, perdeu 99% do seu valor. Ninguém pode viver na Suécia sem fazer as suas despesas no quotidiano por meios eletrónicos.


Isto está em vias de acontecer com as outras divisas. 

CONFISCAÇÃO DOS RENDIMENTOS POR VIA FISCAL


No reino do Big Brother é muito conveniente o aumento insensível do nível de imposto, sem que as ovelhas, incautas, se apercebam: assim, há um século o imposto designado por IRS já existia, mas quase ninguém o tinha de pagar. Era apenas pago pelo 1% com maiores rendimentos. Os escalões foram-se mantendo, apesar da inflação, pelo que hoje em dia, quase ninguém deixa de pagar o IRS, por mais modesto que seja o seu rendimento real. Assim, em IRS (que atinge valores da ordem de 20% de rendimentos médios, mesmo depois de descontos diversos), IVA (com muitos bens comuns a 23% e apenas uma minoria com imposto reduzido), imposto sobre combustíveis (cerca de 80% do preço da gasolina é para impostos), IMI (valores de imposto para as famílias, os grandes detentores de imobiliário, desde as empresas de imobiliário, igrejas, partidos, etc. estão isentas), em impostos diversos… uma família média em termos de rendimentos e de despesa, paga aproximadamente 50% ou mais de impostos ao Estado, sobre o seu rendimento nominal. Se compararmos o mesmo índice há 50 ou 100 anos atrás, veremos que o crescimento da fatia de rendimento que é capturada pelos impostos aumentou muito mais do que o próprio aumento do rendimento disponível. Pode-se dizer, sem receio de errar, que os impostos excessivos são um meio de extorsão, porque a contrapartida em serviços públicos é cada vez pior, a qualidade está ausente, a sua universalidade deixa muito a desejar e verifica-se que o desmantelamento do «Estado social» atinge já um grau muito avançado, com entrega à gula privada de sectores inteiros (saúde, educação, transportes, estradas, etc…). É a escravatura da sociedade no seu conjunto, para benefício de uma pequena minoria de financeiros, com os acólitos que controlam o aparelho do Estado: estamos perante um novo feudalismo.

TODA A EXPANSÃO DE CRÉDITO TEM UM FIM

O aumento dos empréstimos dos Estados, principalmente nos países da OCDE («Ocidente») não poderá continuar indefinidamente. Chega um ponto em que a carga de juros aumenta para além da capacidade de pagamento dos Estados, caso esses juros sejam fixos. Caso sejam variáveis, os juros são artificialmente suprimidos por compra dos títulos de dívida pelo BCE (Banco Central Europeu) o que origina uma distorção enorme do mercado. Num sistema capitalista, o preço do dinheiro é um parâmetro fundamental. Se o dinheiro é demasiado barato, ou seja, se os juros para obter empréstimos são demasiado baixos, vai ocorrer uma má atribuição de capital pelos diversos agentes económicos: muitas vezes essa atribuição não será prudente, não será produtiva no médio-longo prazo… Em suma, haverá necessariamente uma má aplicação generalizada de capital. Que outra coisa se vê, senão isso? Veja-se os empréstimos das empresas cotadas em bolsa e que servem para compra das suas próprias ações em vez de servirem para expansão do seu negócio, para aumentar a sua capacidade produtiva. Veja-se o aumento especulativo absurdo do imobiliário em tantas cidades pelo mundo fora (São Francisco, Toronto, Nova Iorque, Londres, Berlim, Lisboa…etc.). Veja-se o afundamento da economia produtiva verdadeira, da que produz bens e serviços reais, enquanto surge uma economia totalmente fictícia, tanto em termos de valor acrescentado, como em termos de serviço real à comunidade; mas é esta pseudo-economia que é louvada, acarinhada e incentivada na média quotidianamente…
              
          

O Quadro acima reflecte o Mercado global de obrigações, emitidas pelos Estados, seja em dólares (note-se que vários países emitem dívida em dólares e não apenas os EUA) seja noutras divisas, seja o mercado de obrigações de Economias Emergentes (E.M.). Penso que este quadro resume a total desregulação dos sistemas económicos mundiais. Pensemos no que acontece com essas somas absurdas de dinheiro. Os Estados não as aplicam produtivamente. Mais dólares disponíveis significa maior despesa em armamentos, em actividades improdutivas, em desperdício e enriquecimento da cleptocracia que nos (des)governa.

 Quando rebentar a crise, os países vão impor controlo de divisas. Vão fechar todas as portas e janelas para impedirem os cidadãos de tomar medidas para preservar o seu dinheiro. Já têm o plano bastante avançado. O famoso «reset» de que tanto se fala, será provavelmente uma ocasião dos muito ricos e poderosos ganharem ainda maior controlo sobre as riquezas materiais.
Como dizia um dos primeiros banqueiros Rothchild: «Dêem-me o controlo da emissão de moeda e pouco me importa quem estará aos comandos do Estado»
Para não se ser esmagado por uma crise anunciada, a qual implicará num momento ou noutro, uma hiperinflação, a única salvaguarda é fugir de bens financeiros, investindo em bens reais: fazer um estoque de bens alimentares (conservas, cereais, massas alimentares, água), de medicamentos (quer usados cronicamente, quer esporadicamente). Investir em sistemas de purificação da água, geradores de eletricidade, combustíveis…Dispor de moedas em ouro e prata; dispor de uma soma em dinheiro-papel, para o caso de uma interrupção prolongada (ou um racionamento) do fornecimento do dinheiro nas máquinas multibanco (ATM).
Não servirá de nada tomar estas medidas em cima do acontecimento: os sistemas financeiros (incluindo as máquinas ATM) entrarão em colapso; as redes de distribuição de bens alimentares irão parar, num espaço de uma semana, se a crise atingir uma gravidade maior, etc. 
Portanto, só serão eficazes a medidas apontadas, se tomadas antes desta crise vindoura estourar. Depois será demasiado tarde.

Não se deve ter a ilusão de que os que estão ao comando do sistema vão trabalhar para salvá-lo e nos salvarem também. Eles vão apenas garantir que a transição - inevitável, por tudo o que ficou acima exposto – seja feita em seu proveito próprio. O mínimo que podemos fazer é informar-nos, informar os outros de forma não alarmista, mas consistente, na esperança de que um número significativo de pessoas, tendo conhecimento, saber, sobre o que está sendo planeado, melhor se defenderão. Serão essas pessoas que estarão em condições de subsistir e construir uma nova economia, um novo mundo.




SONATA PARA DOIS VIOLONCELOS E CONTÍNUO DE HAENDEL

Interpretação da sonata para dois violoncelos e baixo contínuo, Op. 8  em Sol menor, de Georg Friedrich Haendel.

                           


Entre os mestres do barroco, coloco Haendel a par de J.S. Bach. Considero Haendel o maior compositor da Grã Bretanha, de todos os tempos. 


Sem dúvida, Haendel tinha uma capacidade mágica de produzir linhas melódicas de uma beleza inexcedível. 


As suas composições instrumentais têm sempre uma perfeita adequação aos instrumentos, neste caso os dois violoncelos.


Nunca a sua música me pareceu enfadonha, como poderia acontecer com certas peças de seus contemporâneos, mesmo de alguns célebres e talentosos.